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[GRIFO NOSSO] - Recortes do Moura


Quinta-feira , 16 de Junho de 2005


Corrupção à brasileira: a mentira

Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma, completamente. E mentem de maneira tão pungenteque acho que mentem sinceramente. (Affonso Romano de Sant’Anna)


Roberto DaMatta

Todas as sociedades conhecem o crime, o pecado que ofende os deuses, e aquele conjunto de transgressões impensáveis, os chamados “tabus”. Mas cada qual, como revela uma antropologia que não se contenta simplesmente com a forma e a funcionalidade, tem suas singularidades: seus fantasmas e estilos de transgredir e desafiar o bem e o bom.

Nos Estados Unidos, em Cambridge, Massachusetts, eu constatei numa noite de janeiro de 1969 que a mentira era, além de crime, um tabu. “Por favor, não minta! Se você mentir é muito pior!”, disse-me olhando nos olhos o policial quando me flagrou com a placa do meu velho Fusca totalmente vencida. Brasileiramente, eu tentei dar um “jeito”, mas minha mentirosa explanação (havia vendido o carro, estava de volta para o Brasil, não tinha tido tempo para renovar a licença por causa dos exames do doutoramento etc?) foi brecada com aquela palavra de ordem que os americanos todos endossam cotidianamente: não minta! Só fui perdoado quando admiti a mentira?

A admoestação falada com firmeza deu-me a dimensão prática do mito de George Washington, o primeiro presidente dos Estados Unidos, conhecido como o homem que jamais mentiu. A lenda diz que, quando era menino, ele cortou uma cerejeira plantada por seu pai. Confrontado sem perda de tempo com uma iracunda autoridade paterna, decidiu contar a verdade: fora ele, sim, quem havia, num arroubo de desobediência, cortado a árvore? O pai, ao ver a verdade brotar das entranhas arrependidas e dispostas a reconhecer o erro do menino, perdoou-lhe.

Ficou, entretanto, a lição de jamais mentir, que nos dá uma idéia da responsabilidade e do peso da Presidência dos Estados Unidos. Um papel que, hoje em dia, faz chorar todos os meus amigos que vivem “acima do Rio Grande”. Basta pensar em Richard Nixon e em Bill Clinton. Não vamos falar nos Bush?

Seja hipócrita: finja, diga que não sabe, recuse responder, mas não minta! Não invente histórias ou dê explicações que todos sabem ser mentirosas porque são ridículas, parece dizer o credo que administra o cotidiano americano.

No Brasil, uma das maiores dificuldades na condução de uma vida pública marcada pela igualdade, onde cada qual deve ter um mínimo de consciência das demandas do papel que desempenha, está na dificuldade de separar a verdade da mentira. O que, obviamente, equivale a fazer alguma coisa quando os fatos não batem com certas interpretações.

Em geral, falamos a verdade para os próximos; contamos meias-verdades para os relativamente distantes — colegas de trabalho e companheiros de partido; e pregamos mentiras para os de “fora” — os desconhecidos e, sobretudo, os inimigos políticos e as autoridades.

A mentira (e a verdade) tem graus, variedades e profundidades. Pode, assim, pelo seu tamanho, engendrar crises políticas, institucionais, federais, nacionais ou constitucionais, complicando com intensidades diversas a cena pública.

O fato é que é válido mentir na rua em nome da casa; e na casa em nome da rua. É também legítimo mentir na rua e na casa, em nome de um outro mundo, um universo ideal que devemos construir. Daí essa busca complexa da verdade em “depoimentos” e “confissões” policiais que, como se sabe, serão logo “desmentidas” porque foram “extraídas” em situações de coação.

A coisa toda é óbvia: se “quem cala consente”; e se não posso exercer o grave silêncio que, na cultura americana, é lido como prova de controle e de superioridade emocional, então eu devo mentir. Mas uma boa mentira em torno de episódios que todos conhecem transforma-se em interpretação. Temos então as mentiras plausíveis, e as mentiras deslavadas a criar uma realidade sem limites, porque já desbastamos como ingenuidade e burrice a possibilidade de falar a verdade. Ou melhor: de construir a verdade, esse apanágio do mundo moderno, como dizem os mestres que tenho lido.

É nesse sistema de múltiplas éticas (e verdades) que está a chave para se compreender essa institucionalização da mentira como prova de que todos os assuntos podem ser lidos de muitos modos e cada qual tem sua razão no caso do Brasil.

Daí o dilema e o paradoxo. Pois se temos uma verdade para o “povo” e uma outra para a casa e os amigos, donde o nepotismo; se temos uma verdade para o partido, outra para o governo e outra mais para o Congresso Nacional, donde a crise que vivemos.

Cabe cuidar de construir instituições que tornem mais claras e mais próximas essas perspectivas pondo, contudo, de quarentena as ilusões de que o redesenho institucional, por si só, vá mudar tudo e liquidar com a corrupção. Pois ela só poderá acabar quando as conseqüências das mentiras que contamos forem devidamente pesadas, medidas e? punidas.

ROBERTO DaMATTA é antropólogo.

O GLOBO,  Rio de Janeiro, 15 jun. 2005.

Escrito por Moura às 15:30
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Fé no Brasil num boteco do Leblon

João Ubaldo Ribeiro

porque eu não sou desses intelectuais de merda que escrevem nos jornais, sempre choramingando, reclamando e se estarrecendo. Aliás, eu não agüento mais ver neguinho se estarrecendo, não tem nada que se estarrecer, sempre foi assim mesmo. Claro que ninguém roubava por computador antigamente, mas agora é natural é que apareça quem roube por computador, é da vida, realmente eu não agüento mais, vão se estarrecer na Islândia, onde não acontece nada e aí ninguém lá se estarrece.

— Você estava dizendo que não é intelectual.

- Pois é, se bem que não me troque por nenhum desses babacas que escrevem besteira em jornal. De vez em quando, sai uma coisinha que se aproveita, mas geralmente é a mesma cantilena, o artigo é o mesmo, só muda um pouco o recheio. É que eu não tenho como veicular minhas idéias.

— Mas o que é que você quer, só pintam as mesmas coisas e os caras têm de denunciar. Tu vai me dizer que o país não está uma esculhambação, um escândalo atrás do outro, todo mundo roubando em tudo quanto é canto, é no Ibama, é no Correio, é em qualquer lugar que você pense, o sujeito chega a ficar tonto. E agora esse negócio do mensalão é de lascar.

—- Por que é que é de lascar, qual é a novidade?

— Ué, tu acha certo o que está acontecendo?

— Acho, acho! E tenho a coragem de dizer e teria de escrever! Acho certíssimo, o que eu acho errado é criar escândalo em torno disso, perder tempo em querer acabar com a corrupção. Eu não sou tão ignorante assim, tenho minhas leituras, me interesso por assuntos sérios. Vou te dar um exemplo, para ilustrar o que eu vou te dizer. Tu manja o grande Celso Furtado, não manja? Grande homem, grande figura, Deus o tenha. Pois é, tu sabe qual foi a primeira grande sacação do Celso Furtado, quando ele bolou a Sudene?

— Não, não sei. Ele...

— Ele raciocinou que o Nordeste é seco pela própria natureza e ninguém vai mudar isso. Então o negócio era o Nordeste fazer o melhor uso possível do que tinha, se adaptar às próprias condições, do mesmo jeito que não dá pra plantar bananeira no Alasca.

—- Sim, mas a Sudene acabou se dando mal e...

— Sim, mas não por causa do Celso! Ele não teve culpa, ele também era intelectual. E aí só aplicou o novo paradigma ao caso do Nordeste, tinha que aplicar de forma geral e é isso que a gente tem de fazer, está na cara.

— Desculpe, não saquei, não saquei.

— É o seguinte, meu caro amigo: é deixar de aplicar os velhos paradigmas ao Brasil, acho que a gente já amadureceu a esse ponto, está na hora de recorrer ao famoso corte epistemológico, que eu nunca soube o que é, mas deve ser isso. Tem que dar o corte epistemológico, tem de mudar o paradigma, esse que prevalece aí não está com nada, é a força do atraso.

— Tu disse que não era intelectual, mas hoje tá com a macaca, ainda não saquei nada.

— Eu disse que não era um intelectual de merda, como os que escrevem nos jornais, mas eu também penso, sou um intelectual do povo, da classe média, também enxergo as coisas e sou capaz de pensar.

— Então fala claro aí.

— Perfeitamente. No Brasil, todo mundo rouba, sempre roubou. Ou então trambica, faz parte da alma nacional.

— Não concordo, não acho que todo mundo rouba ou trambica.

— Tá legal, a torcida do Olaria não trambica. Ninguém fura fila, ninguém pede pistolão, ninguém telefona interurbano da firma ou do boteco, ninguém procura o INSS pra se encostar sem ter nada, ninguém dá dinheiro ao guarda, ninguém se declara negro só para pegar cota, ninguém compra nem vende voto, ninguém tem emprego onde só aparece no dia do pagamento, ninguém funda associação de caridade pra tomar a grana dos otários e enriquecer, ninguém aluga criança para mendigar, ninguém arma esquema para tirar carteira de motorista sem fazer exame, ninguém se aposenta baseado em fraude, ninguém fajuta nota fiscal, ninguém dá atestado falso, ninguém paga ao fiscal para aliviar a multa, ninguém altera taxímetro, ninguém rouba no peso nem falsifica remédio, ninguém usa produto pirata... Onde é que tu mora, cara?

— Mas é uma generalização excessiva. Eu continuo a achar que a grande maioria é honesta.

— Continue achando. Eu sei que é o contrário e que a grande potencialidade do Brasil é essa mesmo, tem que fazer uso dela e não ficar dando murro em ponta de faca. Tem que aproveitar nosso potencial. Violência? Olhe o lado positivo, os empregos criados pelas firmas de segurança e das locadoras de DVD, para quem não se arrisca a sair de casa. Saúde, idem, idem para as empresas de saúde. Educação, idem, idem para os colégios e cursinhos.

— Mas o impostos que a gente paga, como é que ficam?

— Como é que você acha que o homem ia criar empregos assim da noite para o dia? Tinha que começar colocando os companheiros e isso significa despesas. É tudo incentivo à economia, esse dinheiro acaba voltando para a gente, dá dinamismo à economia. Pra mim é assim que o Brasil faz proveito de sua vocação, tem que adotar um novo paradigma. Abaixo a moral pequeno-burguesa! Todo mundo rouba todo mundo numa boa e eu duvido que vá haver país melhor do que o Brasil, é só parar de veadagem e adotar o novo paradigma, nosso mal é sermos colonizados e não aceitarmos a identidade nacional.


O GLOBO, Rio de Janeiro, 12 jun. 2005.

Escrito por Moura às 15:26
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Importância ética

Frei Betto

Posso entender a reação de leitores se insurgindo contra aqueles que demonstraram indignação ao ver, num jornal carioca, a foto de PMs chutando o rosto de bandidos deitados e algemados. Posso entender, sim, quem acha que bandido bom é bandido morto, pois faz parte dessa parcela da sociedade que prefere a empregada doméstica fora do elevador social; negro pela porta dos fundos.

Minha perplexidade é quando vejo essas mesmas pessoas – que, com certeza, nem são negras, nem pobres – irem ao culto no fim de semana, comungar na missa, acender vela ao santo e professar o nome de Deus.

Posso entender que haja na política brasileira tantos corruptos; maracutaias em licitações e contratos; nepotismo; desvio de verbas; caixa dois; superfaturamentos; propinas e mensalões. Afinal, até agora não houve Reforma Política.

Minha perplexidade é ver políticos do PT – o único partido a desfilar em nosso cenário político erguendo a bandeira da ética – temerem CPIs, investigações, transparências. A emenda fica pior do que o soneto quando se atribui a apuração de suspeitas ao esforço de a oposição desestabilizar o Governo.

Assim como o desenvolvimento social deve, em princípio, preceder o crescimento dos índices econômicos, também a ética deve reger a política e esta direcionar a economia. Quando se inverte a ordem desses princípios, entra-se num atoleiro. Sobretudo ao submeter o jogo político aos interesses econômicos e, em nome da robustez dos cofres públicos e privados, pôr a ética de escanteio.

Posso entender quem não me entende, pois, desde que ruiu a torre de Babel, aceito como fato incontestável que todo ponto de vista é apenas a vista a partir de um ponto.

O DIA, Rio de Janeiro, 12 jun. 2005.

Escrito por Moura às 15:18
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Dramatização mediática: a quem serve?

Leonardo Boff

A embriaguez mediática provocada pela morte de um papa e a entronização de outro ou pela festa de Corpus Christi, mobilizando milhões de pessoas, pode nos induzir em erro quanto ao verdadeiro significado das expressões religiosas. Estas manejam símbolos que, por sua natureza, são inevitavelmente ambíguos. Todo símbolo possui duas direções. Uma aponta para fora, para o Sagrado - para isso existe - e outra aponta para si mesmo, com o risco de esquecer o Divino e o Sagrado e se considerar um fim em si mesmo. É o que acontece com mais frequência. Então inflaciona-se a profusão das imagens religiosas, construídas habilmente pelos mestres da dramatização mediática, a fim de produzir emoções e mais emoções, pouco importa se estas lembram ou não o Sagrado. Mudanças de vida não ocorrem, nem precisam. Os fiéis se eletrizam, vão às lágrimas, gritam por milagres e canonizam imediatamente seu lider religioso: ''Santo súbito'', ''santo agora mesmo''.. Muitos cardeais, bispos e padres se enchem de satisfação, pois vêem o triunfo da religião contra as críticas e suspeitas feitas pela modernidade.
Mas atenção: aqui pode residir um engodo. Não basta a emoção, precisa-se de reflexão (teologia) para tirar a limpo o problema. A prática originária de Jesus e da Igreja apostólica vai numa linha contrária à encenação pública. Jesus diante de tais multidões usaria um discurso que ninguém da mídia reproduziria, pois seguramente seria um ruído insuportável: ''Convertei-vos, mudem de vida, cuidem do faminto, façam justiça ao oprimido e não dissociem o amor a Deus do amor ao próximo, pois ambos são uma coisa só''.

Como no tempo de Jesus, diante de tal discurso as multidões iriam, provavelmente, embora ou minguariam. E os que tomariam a mensagem a sério poriam em marcha uma verdadeira revolução molecular e construiriam uma humanidade mais sã. Imaginem a revolução social que haveria no Brasil se as milhares de escolas cristãs e as muitas universidades católicas apenas ensinassem e levassem seus alunos a viver esse preceito de Jesus: ''amem os outros como se amam a si mesmos e cuidem dos pobres''? Por que não ocorre?

Porque aqui se confrontam dois tipos de cristianismo: o devocionista e o libertador. O devocionismo veio com a colonização e é hegemônico. Ele não coloca o acento na mudança mas na aceitação da doutrina proposta pela Igreja. Sem a sã doutrina, diz-se, ninguém se salva. Mas pela ignorância generalizada, poucos a conhecem. Então o recurso é a devoção aos santos fortes, daí o devocionismo. O criminoso Escadinha antes de assaltar faria o sinal da cruz e se agarrava ao escapulário de Nossa Senhora Aparecida, pois, segundo ele, a Santa fechava o corpo. Eis o devocionismo, desligado da ética e da mudança de vida. Esse tipo de fé não é cristã, é fetichista. Mas é o que se pratica comumente.

O cristianismo de libertação sempre esteve presente, mas só ganhou relevância a partir dos anos 50. O que salva não são prédicas, mas práticas.

A doutrina desvinvulada da prática da justiça, segundo Jesus, é letra que mata, é ausência do espirito que vivifica, é fazer o homem para o sábado e não o sábado para o homem.

Se não resgatarmos esta visão apenas fazemos o jogo do mercado mediático. Este, usando a religião, visa apenas entreter, lucrar e jamais mudar as pessoas e o mundo, pois é isso que importa.

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 11 jun. 2005.

Escrito por Moura às 12:08
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Conversando com o Diabo

Frei Betto *

- Você existe mesmo?

- Ora, não lembra o que disse o cardeal Ratzinger? "Para os fiéis cristãos, o Diabo é uma presença misteriosa, mas real, pessoal e não-simbólica".
 
- Talvez concorde com o último predicado.

- Por quê? - perguntou o Diabo.

- Porque símbolo, reza a etimologia da palavra grega, é o que une, agrega. O antônimo é diabolos, o que desagrega. Desculpe a minha falta de fé.

- Em mim ou no cardeal?

- Nos dois. Na ausência de uma boa dúvida cartesiana, fico com Spinoza: se você, contra a vontade de Deus, induz os seres humanos a praticar o mal, e ainda nos condena à danação eterna, que diabos de deus é esse que o deixa impune e ainda permite que sejamos punidos por você? Afinal, você é inimigo ou cúmplice de Deus?

- Não esqueça, fui criado por Deus.

- Não como demônio, mas como anjo - observei.

- Sim, agora sou um anjo decaído, pois fiz com que a primeira criatura, Adão, se voltasse contra o Criador. Adão tornou-se cativo de meu reino. Jesus teve que morrer na cruz para resgatá-lo.

- Não me venha com esse papo de Mel Gibson - reagi. - Você bem sabe que Deus tinha o poder de arrancar Adão do reino do mal sem precisar mandar o seu Filho e deixar que sofresse tanto. Qual  pai se compraz com o sofrimento do filho? Jesus veio nos ensinar o amor como prática de justiça. E foi vítima da injustiça estrutural que predominava em sua época, como ainda hoje.

- Deus tentou me enganar - queixou-se o Diabo. - Manteve em segredo o nascimento de Jesus. Mas à medida em que o Filho crescia, fui percebendo quão perfeito ele era. Quis, portanto, tê-lo ao meu lado.

- Você tentou seduzi-lo três vezes e quebrou a cara. Prometeu-lhe os reinos deste mundo, mas ele preferiu o de Deus; mandou que transformasse pedras em pães, mas ele não acedeu à primazia dos sentidos; quis vê-lo voar como os anjos, atirando-se do pináculo do Templo, mas ele optou pelas vias ordinárias, e não pelos efeitos extraordinários.
 
- Admito que não consegui dobrá-lo aos meus caprichos. Mas desencadeei as forças do mal contra ele, até que morresse na cruz.

- Mas ele ressuscitou, venceu o mal - frisei.

- Sim, Deus me enganou.

- Como assim?

- O homem Jesus era a isca na qual Deus escondeu o anzol da divindade de Cristo. Ao perceber isso, era tarde demais.

- Por que Deus, em vez de sacrificar seu Filho na cruz, não matou você?

- Isso é um segredo entre mim e Deus.

- Não posso acreditar que Deus comparta qualquer coisa com você, como as almas de seus filhos e filhas, e nem mesmo a existência. Ou acha que vou acreditar que a falta de Adão tenha sido mais grave que o assassinato do Filho do Homem na cruz?

- Eu sou a contradição de Deus - vangloriou-se o Diabo.

- Você já leu Robinson Crusoé? Lembra da "catequese" que ele tentou impingir em Sexta-Feira? Este indagou: "Se você diz que Deus é tão forte, tão grande, ele não é mais forte e mais poderoso que o Diabo?" Crusoé confirmou. Então Sexta-Feira concluiu: "Por que Deus não mata o Diabo para ele não fazer mais maldade?" Embaraçado, Crusoé fingiu que não ouviu.

- O que você responderia? - indagou o Diabo.

- Diria que Deus não pode matar o que não criou. Você é uma criação das religiões arcaicas que dividiam o mundo entre as forças do bem e do mal, o que a Bíblia rejeita, embora alguns políticos atuais queiram justificar seus ímpetos bélicos e suas ambições imperialistas na base desse dualismo.
 
- Mas eu figuro na Bíblia! - exaltou-se ele.

- O que não significa que de fato exista, assim como Adão e Eva também estão citados lá e nunca existiram. Adão significa "terra" e Eva, "vida". A Bíblia, como um livro em linguagem popular, antropomorfiza conceitos abstratos. Ou você acha que Elias subiu ao céu num carro de fogo e que existe o dragão citado no Apocalipse?

- Então você não crê na minha existência? Como explica tanto mal no mundo?

- Você mente tanto e tão bem que até faz a gente tender a acreditar que existe. O mal é uma decorrência da liberdade humana. Eternizar o castigo é eternizar o mal. Somos chamados a responder livremente ao amor de Deus. E onde há amor, há liberdade, inclusive de se fechar a ele.

- E no inferno, você acredita?

- Fico com Dostoievski, "o inferno é a incapacidade de não poder mais amar". Borges frisa que "é uma irreligiosidade" crer no inferno.

- Mas eu sou real - insistiu o Diabo.

- Deus não tem concorrente - rebati. - Nós inventamos você para nos eximir de nossas responsabilidades e culpas, por nem sempre corresponder ao que Deus espera de nós.


* Frei dominicano. Escritor.

 

Adital (Agência de Informação Frei Tito para a América Latina) - www.adital.org.br - 27 abr. 2005

Escrito por Moura às 12:04
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