Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma, completamente. E mentem de maneira tão pungenteque acho que mentem sinceramente. (Affonso Romano de Sant’Anna)
Roberto DaMatta
Todas as sociedades conhecem o crime, o pecado que ofende os deuses, e aquele conjunto de transgressões impensáveis, os chamados “tabus”. Mas cada qual, como revela uma antropologia que não se contenta simplesmente com a forma e a funcionalidade, tem suas singularidades: seus fantasmas e estilos de transgredir e desafiar o bem e o bom.
Nos Estados Unidos, em Cambridge, Massachusetts, eu constatei numa noite de janeiro de 1969 que a mentira era, além de crime, um tabu. “Por favor, não minta! Se você mentir é muito pior!”, disse-me olhando nos olhos o policial quando me flagrou com a placa do meu velho Fusca totalmente vencida. Brasileiramente, eu tentei dar um “jeito”, mas minha mentirosa explanação (havia vendido o carro, estava de volta para o Brasil, não tinha tido tempo para renovar a licença por causa dos exames do doutoramento etc?) foi brecada com aquela palavra de ordem que os americanos todos endossam cotidianamente: não minta! Só fui perdoado quando admiti a mentira?
A admoestação falada com firmeza deu-me a dimensão prática do mito de George Washington, o primeiro presidente dos Estados Unidos, conhecido como o homem que jamais mentiu. A lenda diz que, quando era menino, ele cortou uma cerejeira plantada por seu pai. Confrontado sem perda de tempo com uma iracunda autoridade paterna, decidiu contar a verdade: fora ele, sim, quem havia, num arroubo de desobediência, cortado a árvore? O pai, ao ver a verdade brotar das entranhas arrependidas e dispostas a reconhecer o erro do menino, perdoou-lhe.
Ficou, entretanto, a lição de jamais mentir, que nos dá uma idéia da responsabilidade e do peso da Presidência dos Estados Unidos. Um papel que, hoje em dia, faz chorar todos os meus amigos que vivem “acima do Rio Grande”. Basta pensar em Richard Nixon e em Bill Clinton. Não vamos falar nos Bush?
Seja hipócrita: finja, diga que não sabe, recuse responder, mas não minta! Não invente histórias ou dê explicações que todos sabem ser mentirosas porque são ridículas, parece dizer o credo que administra o cotidiano americano.
No Brasil, uma das maiores dificuldades na condução de uma vida pública marcada pela igualdade, onde cada qual deve ter um mínimo de consciência das demandas do papel que desempenha, está na dificuldade de separar a verdade da mentira. O que, obviamente, equivale a fazer alguma coisa quando os fatos não batem com certas interpretações.
Em geral, falamos a verdade para os próximos; contamos meias-verdades para os relativamente distantes — colegas de trabalho e companheiros de partido; e pregamos mentiras para os de “fora” — os desconhecidos e, sobretudo, os inimigos políticos e as autoridades.
A mentira (e a verdade) tem graus, variedades e profundidades. Pode, assim, pelo seu tamanho, engendrar crises políticas, institucionais, federais, nacionais ou constitucionais, complicando com intensidades diversas a cena pública.
O fato é que é válido mentir na rua em nome da casa; e na casa em nome da rua. É também legítimo mentir na rua e na casa, em nome de um outro mundo, um universo ideal que devemos construir. Daí essa busca complexa da verdade em “depoimentos” e “confissões” policiais que, como se sabe, serão logo “desmentidas” porque foram “extraídas” em situações de coação.
A coisa toda é óbvia: se “quem cala consente”; e se não posso exercer o grave silêncio que, na cultura americana, é lido como prova de controle e de superioridade emocional, então eu devo mentir. Mas uma boa mentira em torno de episódios que todos conhecem transforma-se em interpretação. Temos então as mentiras plausíveis, e as mentiras deslavadas a criar uma realidade sem limites, porque já desbastamos como ingenuidade e burrice a possibilidade de falar a verdade. Ou melhor: de construir a verdade, esse apanágio do mundo moderno, como dizem os mestres que tenho lido.
É nesse sistema de múltiplas éticas (e verdades) que está a chave para se compreender essa institucionalização da mentira como prova de que todos os assuntos podem ser lidos de muitos modos e cada qual tem sua razão no caso do Brasil.
Daí o dilema e o paradoxo. Pois se temos uma verdade para o “povo” e uma outra para a casa e os amigos, donde o nepotismo; se temos uma verdade para o partido, outra para o governo e outra mais para o Congresso Nacional, donde a crise que vivemos.
Cabe cuidar de construir instituições que tornem mais claras e mais próximas essas perspectivas pondo, contudo, de quarentena as ilusões de que o redesenho institucional, por si só, vá mudar tudo e liquidar com a corrupção. Pois ela só poderá acabar quando as conseqüências das mentiras que contamos forem devidamente pesadas, medidas e? punidas.
ROBERTO DaMATTA é antropólogo.
O GLOBO, Rio de Janeiro, 15 jun. 2005.


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