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Segunda-feira , 18 de Julho de 2005


O pior dos mundos




A única chance de recuperação da imagem do PT como partido político diferenciado é o compromisso com o esclarecimento completo do que aconteceu, analisam cientistas políticos em uníssono. Paulo Roberto Figueira, do Iuperj, acha que “para milhões de eleitores que sempre viram no PT um partido diferente dos demais, mudar dirigentes é muito pouco. O partido precisa dar sinais de real compromisso com o esclarecimento total dos fatos, inclusive se antecipando a divulgá-los, e não apenas respondendo laconicamente às denúncias depois que elas surgem na imprensa”.

Para ele, o Campo Majoritário — grupo historicamente ligado a Lula no PT e que comanda o partido — “precisa tomar a corajosa decisão de fazer uma autocrítica. Em nome da eleição de Lula, e depois em nome da governabilidade, este segmento do PT defendeu as alianças com os setores historicamente adversários do PT que estão no centro da crise — o PL, o PTB, o PP”.

Paulo Roberto Figueira lembra que enquanto essas alianças davam frutos positivos, “o Campo Majoritário se apresentava à sociedade como a parte moderna e não sectária do PT, contrapondo-se à esquerda partidária. Agora seria útil que tivesse a coragem de assumir a responsabilidade política também pela maior crise da história do PT”.

Nesta altura, segundo ele, “a inação e a omissão são os piores venenos para o PT. Negar os problemas cada vez mais óbvios é suicídio político e eleitoral. Ajudar de fato a investigar e punir exemplarmente os eventuais culpados é a única possibilidade de o PT diminuir o estrago em sua imagem”.

Para Figueira, “os milhões de novos eleitores do PT em 2002 não votaram apenas num discurso mais moderado — votaram também no velho discurso petista de compromisso com a ética. Ou o PT se reencontra com ele por meio de ações concretas, ou corre o risco de perder não apenas os novos eleitores, mas também boa parte dos antigos”.

Leonardo Avritzer, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, é mais benevolente na sua análise e acha que a crise é de acomodação do PT ao presidencialismo de coalizão: “O PT tem uma dificuldade a mais com o presidencialismo de coalizão, que é a distância entre a sua agenda política e a agenda e práticas dos partidos da base”.

Mas Avritzer acha que essa crise ressaltou um problema crucial: a distância que separa o partido do governo da maioria. Lula teve 47% dos votos e o PT menos de 20% da Câmara. Para ele, “essa distância está na raiz da crise política atual, e deve ser objeto da reforma política”. Ele sugere que uma reforma política dê mais força ao partido do presidente no Congresso.

Para ele, a principal lição dessa crise é que “para a esquerda, não existem atalhos para o poder. O atalho pensado por José Dirceu está derrotado. Por um lado, a agenda petista não chegou ao poder, por outro, o partido, com o escândalo, pode ter perdido parte importante das suas bases. Ou seja, o pior dos dois mundos”.

O professor David Samuels, brasilianista da Universidade de Minnesota, não crê que o apoio a Lula, majoritário hoje no Norte e Nordeste, seja devido ao assistencialismo. “Não acho que o PT vai se tornar um partido populista tradicional. O Lula não é um Chávez, ou, para dar um exemplo brasileiro, um Garotinho, que são populistas mais tradicionais”. Para ele, o governo Lula usa os recursos do Executivo para disputar espaços, do mesmo modo que Fernando Henrique também tentou se fortalecer com o assistencialismo, “e ninguém vai dizer que o PSDB se tornou um partido assistencialista”.

Mesmo que Lula perca a reeleição, David Samuels não imagina que “o PT possa se tornar um partido como outros no Brasil, viciado em recursos do Estado para se sobreviver politicamente. Pode acontecer, mas duvido”. Ele admite que o PT enfrenta, sim, a questão do pós-Lula, “mas pode esperar mais uns anos. Duvido que essa crise vai acabar com o PT. O PT é bem maior do que essas personagens que estão na mira hoje em dia”, analisa, dizendo que o PT será sempre um partido competitivo no nível nacional. “Tem candidatos fortes para prefeito e governador em vários estados, e pode continuar fazendo uma bancada de 100 deputados mais ou menos”.

Fernando Limongi, sociólogo, presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), acha que o PT “sempre quis, ou esteve disposto a desradicalizar. Sempre foi um partido eleitoral”. Ele avalia que o que varia é “o discurso, dependendo do espaço deixado pela oposição. Enquanto a centro-direita esteve fechada em torno da coligação PFL-PSDB, o PT não tinha como vir para o centro. O que possibilitou a estratégia diversa em 2002 foi a quebra da aliança entre os adversários. Serra foi incapaz de solidificar o bloco de centro-direita como FHC havia feito. Daí porque o PT pôde vir para o centro”.

O tamanho do estrago eleitoral que a CPI trará para o PT “é ainda algo em aberto. Tudo depende do que vier à tona e de onde se fechará o círculo”, conjectura Limongi. Embora no momento os prognósticos não sejam alentadores para o PT, ele diz que “PFL e PSDB não deixam de correr riscos, uma vez que financiamento de campanha é algo perigoso de ser tocado para todas as forças políticas”.

Hamilton Garcia, sociólogo da Universidade Estadual do Norte Fluminense, acha que “a contribuição maior virá com a derrota do pragmatismo de ‘esquerda’, aparelhista e autoritário”. O PT poderia, assim, se definir com mais precisão, “compensando seu desinchaço com a formação de uma frente ampla à moda uruguaia. A estabilidade do governo Lula será reforçada se o PT se aproximar do PDT, PPS e PSDB, e também se for capaz de imprimir criatividade à política econômica, que assumiu uma feição tecnocrática”.


Merval Pereira
O GLOBO, Rio de Janeiro, 17 jul. 2005.

Escrito por Moura às 16:23
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