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Quarta-feira , 27 de Julho de 2005


Temos de criar uma nova esquerda

Arnaldo Jabor


O Brasil precisa de uma nova esquerda. A concepção antiga acabou. Está provado o fracasso. Não adianta apenas refazer o PT “moralmente”, agora que se esboroou como um biscoito. O PT começou com Lula como um partido original e prático e terminou caindo pelas doenças já catalogadas da esquerda de 1917. O vícios do PT foram causados por velhas teses, principalmente do Zé Dirceu. Ser de esquerda é, até hoje, um elogio, e ser de direita, uma ofensa. Sei que falar nisso já provoca suspeitas, entre dogmáticos, de que um “infiel” possa questionar a semântica política da palavra.

“Esquerda” sugere uma reforma radical na sociedade de classes para salvar os pobres, traz à mente a idéia de que é preciso “raspar” a vida social e começar tudo do zero. Para melhorar a vida da população, é preciso uma revisão no repertório conceitual.

A resistência da palavra esquerda é hercúlea. Mesmo depois de fracassos históricos óbvios, a palavra resiste. O termo é esquivo, encobre erros pavorosos e até justifica massacres. Durante o stalinismo, pensávamos que era um desvio “provisório” na grandeza do projeto soviético e a mesma racionalização rolou na invasão da Hungria em 56 ou de Praga em 68. Na Revolução Cultural da China era chiquérrimo ser maoísta em Paris. Até Godard era “chinês”. A palavra esquerda é pétrea, tende a ter um significado fixo — quando deveria ser o contrário. Marx (ahhh... repetir o velho exemplo...) dizia: “Eu não sou marxista.” Ele queria dizer que a esquerda deveria ser definida por sua capacidade de mudanças — não apenas estratégicas — mas também conceituais, em situações históricas inéditas.

No Brasil, a visão de esquerda tem uma tonalidade filosófica, holística, como um “grande relato”. Intelectuais que não têm saco para análises de campo ou de pesquisas nos botequins da vida real, fazem o país caber em suas teses “a priori”. Uma nova esquerda tem de abandonar o discurso universalizante e quase místico, com palavras como “Homem”, “totalidade”, “sujeito da História”, “povo”, “fins e meios”, “centralismo” e substituí-las por outras como ”sobredeterminação”, “complexidade”, “ambivalência”, “parcialidade”, “singularidade”. Uma nova esquerda tem de incluir “indução” em vez de “dedução”, síntese etc... Tem de incluir o inconsciente, a psicanálise. Na avaliação da política, tem de levar em conta o acaso, o acidente, os vícios humanos e abandonar o discurso quixotesco e auto-idealizante. O discurso épico tem de ser substituído por um discurso realista, até pessimista. O pensamento da “esquerda metafísica” tem de dar lugar a uma reflexão mais testada, sentida, mais sociológica.

Além disso, nosso pensamento de esquerda tem de ser local, dentro do vento do tempo. Idéias que podem nos servir não servem para o resto do mundo. Não tem cabimento ler Marx em alemão durante 40 anos e aplicá-lo como um emplastro salvador sobre nossa realidade.

Intelectuais em revoada legitimaram a ascensão do PT ao poder, sem olhar nem uma vez para sua vida real. Votaram no Lula imaginário. Agora, estamos diante do Lula real — que têm eles a dizer? O PT e Lula foram entronizados na eleição como os ungidos de Deus, que vivificariam o Brasil “das elites” com o bafo popular, com a simplicidade sagrada, com a ética enraizada nos sagrados proletários honestos (sic).

Esses intelectuais não imaginaram nem por um segundo que esses “homens do povo” poderiam se comportar como a “porcada magra” que tomou o poder, avançando em cargos, aparelhos, em salários e, para susto até dos céticos, culminando na incrível estrutura de corrupção “revolucionária” que Dirceu inventou.

O PT da velha esquerda não acredita em democracia. Mas, para uma nova esquerda, a democracia tem de ter uma acepção profunda, ser um fim em si mesma. A democracia no Brasil não é um paliativo. Em nossa história oligárquica, clientelista e autoritária só a democracia transparente poderá corroer a velha estrutura colonial. Não adiantam mais clamores épicos contra a injustiça e exortações à luta de classes que, nas brechas de um patrimonialismo de 500 anos, sempre foi limitada a espasmos populares e populistas esmagados pelas classes dominantes. Muito mais importante do que brados contra a miséria seria uma esquerda que estudasse a mentalidade escravista transplantada para um capitalismo precário e seus procedimentos de exclusão. Alias, como estamos até enxergando um pouco agora, por obra de Dirceu e Jefferson. É maravilhosamente irônico. Uma esquerda nova que se preocupasse com o presente possível e se dedicasse com desvelo à administração pública, que buscasse reformar o Judiciário, cama de todos os vícios, que enquadrasse a burocracia, o clientelismo, a corrupção, enxugando o Estado. Mais Weber e menos Lenin. Sergio Buarque de Holanda em vez de Lenin e Gramsci. Entender que o inimigo principal não é o capitalismo e sim o patrimonialismo. A se perpetuar este equívoco, o povo tenderá a procurar respostas mais grossas, dos oportunistas que virão comer os restos. Lula já está falando em “elites” culpadas pela vergonha do governo e buscando ser ouvido pelas classes C e D, que são propriedade do maior perigo que o país corre: o populismo de Garotinho.

Temos de ter coragem de expressar as “idéias impensáveis”. Por exemplo: por que a esquerda tem necessariamente de estar ligada à idéia de socialismo? Por quê? Por causa de 1848? Por quê? Enquanto esse finalismo fixo existir, o pensamento fica comprometido, numa ditadura de conceitos tão amada pelos “militantes imaginários”, os Hegels de plantão. Se tivermos que arribar necessariamente em um socialismo, seja ele sueco ou norte-coreano, o pensamento já nasce engessado naquela direção.

Uma nova esquerda tem de acabar com a fé e a esperança. Isso dói, eu sei. Mas as duas antigas virtudes não cabem mais no mundo de bosta de hoje. No Brasil, uma esquerda tem de trabalhar no dia-a-dia e não saber para onde vai. Uma nova esquerda tem de acabar com a “esquerda”. Esta palavra nos impede de pensar.


Publicado n'O GLOBO, Rio de Janeiro, 26 jul. 2005

Escrito por Moura às 18:23
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CORRUPTIO OPTIMI PESSIMA EST

Leonardo Boff


 

Esta expressão latina diz de forma breve uma grande verdade: "a corrupção dos melhores é a pior que existe". Houve corrupção em políticos do PT e em outros, não pontual nem episódica mas intencionada e planejada. Esse tipo de corrupção, como muitos atestaram, vem praticada há muito pela política convencional de forma sistemática: a criação de caixa dois para financiar campanhas eleitorais e comprar eventualmente votos. Se todos fazem isso (reservado fica o direito da dúvida), o PT não poderia jamais fazer o mesmo. Ele surgiu no cenário histórico com a bandeira da moralidade pública, das mudanças, da centralidade do social e da democratização da democracia. E eis que agora setores importantes do PT resvalaram para a vala comum, desonraram uma história gloriosa, atraiçoaram os que viviam de esperança e deram um tranco formidável na evolução política do Brasil. A corrupção destes melhores é a pior coisa que possa existir. Quem será agora o portador coletivo da ética embora ninguém tenha o monopólio dela? Não dá para reanimar um cadáver. Este tem que ser enterrado.

Graças a Deus que existem pessoas no PT que sempre resistiram às tentações das benesses do poder, que não negociaram com as "más companhias", que sempre alimentaram uma relação orgânica com os movimentos populares e que sempre mantiveram alto teor ético-místico em sua prática política. Estes formam a reserva ética, ganharam, nesta crise, credibilidade e emergem como pontos luminosos de referência. Se não forem escutados, se não ocuparem posições intrapartidárias importantes na reconstrução da figura do Partido é sinal que este não se dispõe a aprender nada da crise e persiste na arrogância e no farisaismo.

Esta crise ética nos faz pensar. Não é suficiente uma ética social, expressão de um projeto coletivo, representado, por exemplo, pela generosa tradição marxista/socialista. Em função de um bem coletivo e por causa do dinamismo próprio da dialética, há na prática marxista a tendência de justificar deslizes éticos como passos toleráveis para se conseguir certos avanços na luta de classes. A ética pesssoal é sacrificada em nome de um fim mais alto.

Esta posição não é esposada pelos cristãos de onde vêm muitos do PT. Se há uma colaboração perene que o cristianismo trouxe ao discurso ético é certamente este: o caráter inegociável da ética pessoal. A razão reside no entendimento da consciência como norma interiorizada da moralidade. Esta interiorização é um fato irredutível. Não é fruto de algum superego social, nem é eco da voz do dominador externo. Há lá dentro, no íntimo de cada pessoa, uma voz que não se cala, sempre vigilante, aprovando e proibindo, advertindo, aconselhando e dizendo: "não faças isso, faça aquilo". Por mais que pscianalistas, marxistas e outros mestres da suspeita tenham tentado desconstruir essa voz, ela perdura soberana. Sócrates e Kant a chamaram de "voz de Deus em nós". Ela não cessa de falar.

Os corruptos do PT e outros não escutaram esta intimidação da consciência. Nenhum projeto de poder, nenhuma vitória eleitoral justifica a desobediência à consciência. E assim, poderão ser punidos pelas leis e muito mais pela própria consciência. Não adianta fugir, ela sempre os perseguirá.



Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 jul. 2005.


[OBS: Este artigo foi escrito em homenagem ao senador Eduardo Suplicy e ao deputado federal Chico Alencar.]

Escrito por Moura às 18:22
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