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Sexta-feira , 17 de Fevereiro de 2006


A fé do Islã nos questiona

* Leonardo Boff

Muitas são as leituras que se estão fazendo acerca das reações muçulmanas contra as charges da figura de Maomé. Das que li, ao meu ver, nenhuma delas apontou o cerne da questão; quem mais se acercou foi Mauro Santayana aqui no JB. Precisamos ir mais a fundo na análise, pois ela esconde o estopim de uma provável guerra de civilizações preconizada por S. P. Huntington em seu discutido livro O choque de civilizações(1996).

Equivocam-se os que pensam se tratar de mero fundamentalismo. Para o Islã por detrás das charges está a cultura moderna do Ocidente hoje globalizada. É tida como sem fé, imoral, exploradora, belicosa, arrogante e violadora de tratados da ordem mundial. Ela se julga universal e por isso digna de ser imposta a todo mundo: um pretenso universalismo que se transforma em imperialismo, como se vê explicitamente na política externa de Bush e em declarações de Berlusconi. Há que se reconhecer que a maior fonte de instabilidade e de possível conflito num mundo pluricivilizacional é exatamente o Ocidente. Sua arrogância, embutida também nas igrejas cristãs, pode nos levar todos a perder.

Para o Ocidente por detrás das reações às charges está o radicalismo islâmico fundado no orgulho de sua cultura e no sentimento de superioridade por manter viva a fé pública em Deus. Está também o rancor pelo fato de seus territórios serem militarmente ocupados em razão do petróleo e de serem considerados antimodernos, fundamentalistas e nichos do terrorismo mundial.

Confrontamo-nos aqui com preconceitos mútuos que ressuscitados no contexto globalizado podem gerar incontrolável violência.

Mas o verdadeiro pomo de discórdia reside na fé e no lugar que ela deve ocupar na vida pessoal e social. As sociedades modernas ocidentais são filhas da razão ilustrada. Só se legitima aquela realidade que passa pelo crivo da razão crítica. Por esse crivo não passou a fé tradicional. Ela não é fator determinante na sociedade. Foi relegada ao mundo privado. Vendo de fora, o Ocidente socialmente não tem fé. Vive-se et si Deus non daretur ("como se Deus não existisse") na famosa formulação do teólogo-martir do nazismo D. Bonhoeffer que anteviu esse obscurecimento social da fé.

Esse ponto de vista é inaceitável para o Islã. É impensável uma sociedade sem uma dimensão institucional de fé. É não ver sentido no universo, sustentado pelo Criador do céu e da terra, é desconhecer os seres humanos como irmãos e irmãs. Isso não funda necessariamente um estado teocrático como se comprova hoje na Indonésia, o maior pais muçulmano do mundo. O Estado reconhece explicitamente na sua organização a fé em Deus, sem identificar esse Deus com o do Islã, do Cristianismo ou de outras religiões. É um estado não confessional, com forte identidade nacional e fé ecumênica. A herança irrenunciável de Maomé é esta proclamação pública de Deus e da irmandade de todos os seres humanos, valores tidos no Ocidente por pré-modernos.

Fazer caricaturas do Profeta é pôr à irrisão esta fé que orienta a vida de milhões. Dai a reação compreensível de muçulmanos do mundo inteiro. A fé é central no Islã enquanto é irrelevante no Ocidente. As charges procuram ridicularizar esta diferença. O desrespeito ao Sagrado põe à amostra a irrefreável decadência espiritual do Ocidente.


* Teólogo. Membro da Comissão da Carta da Terra


Adital (Agência de Informação Frei Tito para a América Latina) - www.adital.org.br - 16 fev. 2006

Escrito por Moura às 23:32
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