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[GRIFO NOSSO] - Recortes do Moura


Terça-feira , 02 de Maio de 2006


US$ 160 milhões sem licitação e sem recibo

Estes escândalos que surgem (graça a Jesus!) no galinheiro do Garotinho/Rosinha eram previsíveis, pois o casal é capaz de qualquer coisa. Mas o que me fascina e aturde é que esses gigantescos roubos de dinheiro público por ONGs fajutas possam ter acontecido. Como é que pode? O Poder Executivo do Estado do Rio, assim, num dia-a-dia normal, “doou” a quantia de 113 milhões de reais para três ONGs sem licitação, entidades que só existem falsamente em portinhas laranjas perdidas em remotas vilas. Sem empenhos, sem contratos, sem nada, para serviços mentirosos. São 113 milhões de reais, ou seja, são 50 milhões de dólares só nesta roubalheirazinha das três irmãs, porque o total “doado” a outras ONGs vai a 330 milhões de reais, ou seja, cerca de 160 milhões de dólares do estado para futuros financiadores dos governantes. Como é que tudo isso passou pelos contadores, pelas secretárias, pelos carimbos, pela rubricas, sob os bocejos entediados de burocratas? Imagino a cena: “Ah... devemos dar 160 milhões de dólares para aquelas ONGs imaginárias ali, sem papel, sem nada?... Ótimo... perfeitamente, amigo, pode assinar aqui... O dinheiro já está na sua conta... Ah... não precisa recibo, não, gente boa”.

Os 330 milhões davam para fazer umas 6.000 escolas e, talvez, uns dez hospitais, em meio ao caos da saúde. Essa grana representa 20 vezes mais do que foi investido em saúde pelo governo do estado. Em qualquer país decente, só este fato já justificava impeachment.

O pântano em que o Estado do Rio navega com o comando da Alerj não é mais “um caso de corrupção”, não; toda a máquina do poder fluminense está podre, e a honestidade é que é exceção, fortuita. Sem contar o que não sabemos ainda dos labirintos do executivo estadual, dos intestinos da Alerj, da caixa-preta da Prece... oh, cornucópia da abundância corrupta!

É incrível como a História deixa restos sujos na trilha do país... O Rio que temos hoje nasceu da fusão do Estado da Guanabara com o Estado do Rio, operada pelos militares. A fusão não foi apenas geográfica ou econômica, foi uma fusão sociocultural. De alguma forma, os milicos queriam arrasar a predominância política do Rio, ex-capital federal , lugar decisivo do país. Com a fusão, reduziram o Rio a um departamento e castraram sua importância. Os militares cassaram 75 por cento da bancada do Rio de Janeiro e, em seu lugar, emergiram os populistas do interior. No Estado da Guanabara, por exemplo, os funcionários públicos eram concursados; no Estado do Rio, não. Em vez de emprestar progresso às regiões mais atrasadas, o que aconteceu foi o contrário: o atraso, a ignorância, o banditismo populista tomaram de assalto a ex-cidade maravilhosa.

Nesses últimos 40 anos, nosso sistema burocrático se deteriorou para caber nos desígnios corruptos e clientelistas que nos invadiram. O chaguismo foi sua marca mais visível e criou herdeiros como Moreira Franco e hoje Garotinho e seu êmulo, o anjo dos velhinhos Sérgio Cabral e “bispos” do dízimo como Marcelo Crivella.

Quebrou-se a tradição política de vanguarda dos cariocas, que, ilusória ou não, era marcante na consciência nacional. Viramos um segundo time, sem economia, sem lugar político.

Nosso destino passou a ser traçado pelas legiões de analfabetos enganados pelos demagogos, em nome de Deus, enquanto nossa opinião política foi emagrecendo até virar este rancor impotente de pequenos-burgueses, entre chopinhos derramados, o que possibilitou a imperdoável eleição de Rosinha.

Nossa delinqüência pública é diferente da dos outros estados. Há roubalheira em todos, claro, mas aqui é sistêmica, organizada entre Legislativo, Executivo e Judiciário, numa aliança tripartite, numa entente cordiale. Aqui, a perversão é geral, jogando o Rio para trás no tempo, desorganizando as instituições, ameaçando a vida social, sob os olhos perplexos da classe média, que não consegue vocalizar seu desespero em termos eleitorais, pois não há oposição contra o sistema clientelista que se espraia por todos os gabinetes. Vocês viram na TV a genial sessão de justificativas de vários assistentes da Rosinha, balbuciando desculpas rotas para explicar como se entregam 160 milhões de dólares para quatro firmas falsas? Foi um show de maravilhas.

Nosso estado tem de ser refundado, temos de eleger pessoas que não sejam dessas quadrilhas. E temos de chamar a polícia, claro. Mas... qual, onde, quem?

Alie-se a este espetáculo repugnante do Rio o que vemos na política nacional: depois do assalto por uma quadrilha no poder, desviando bilhões de fundos de pensão, bancos oficiais e estatais, nada mudou na imagem do Lula, que, provavelmente, será reeleito pelo desejo sagrado do povo. Talvez a exposição dos crimes, ao invés de frear a pouca vergonha, esteja provocando uma certeza maior de impunidade, já que o Poder Judiciário se provou impotente, paralítico, virando a uma fortaleza de proteção, o que estimula a continuação dos delitos.

A democracia recuperada em 1985 está sendo exercida pelas investigações que a imprensa faz, graças a Deus. De resto, vemos que ela não existe nas instituições, nas leis e nos hábitos seculares. A democracia está servindo para vermos que o sistema não é democrático. Como somos primitivos... Como somos atrasados, como nosso desejo popular, esfaimado por séculos de incultura, é ainda tutelado pelo atraso oligárquico, pelos corruptos e por uma velha esquerda populista. Mas o que fazer? É isso que o “povo” quer, pois foi cuidadosamente deseducado pelos donos do poder, para que nunca entenda a complexidade da democracia republicana, sua única salvação.

Arnaldo Jabor

Publicado n'O GLOBO em 02 de maio de 2006.

Escrito por Moura às 16:28
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