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Quinta-feira , 11 de Maio de 2006


Frei Betto diz que greve de fome de Garotinho é 'ridícula'

SÃO PAULO - Carlos Alberto Libânio Christo, o escritor Frei Betto, fala com a autoridade de quem já fez duas greves de fome na década de 70, para protestar contra sua detenção em presídios comuns, já que era um dos presos políticos brasileiros que lutavam contra o regime militar de 1964. Greve de fome tem que ser feita por uma causa justa e não como a do ex-governador Anthony Garotinho, considerada por ele como "ridícula".

- A greve de fome de Garotinho é só pela vaidade. É fome por poder. Não tem sentido essa greve porque ele quer espaço no "Globo" e na "Veja" para dar sua versão, quando o "Globo" já lhe deu esse espaço. O que ele não consegue mesmo é explicar as irregularidades que comete. Uma greve só se justifica quando a causa é nobre. Gandhi fez greve de fome em sua luta pela libertação da Índia. O presidente Lula fez uma greve de fome de quatro dias em 1980 quando estava preso na Polícia Federal em São Paulo porque liderava greve justa de metalúrgicos no ABC. Eu fiz duas greves de fome. Uma de seis dias em 1970 quando estava preso no Presídio Tiradantes em São Paulo e outra de 36 dias em 1972 quando me levaram para o presídio de Presidente Wenceslau. Eu protestava porque me davam tratamento de preso comum, de bandido, quando eu era preso político, que lutava contra a ditadura - disse Frei Betto.

O escritor dominicano acha que como Garotinho tinha muitas gorduras para queimar, ele poderia resistir vários dias ainda, mas adverte que do 5º ao 12º dia de uma greve de fome séria, o organismo da pessoa entra num intenso conflito pela sobrevivência que leva as pessoas a quererem comer desesperadamente, até por instinto.

- A partir do 12º dia de uma greve de fome, só tomando soro na veia e aí passa a ser jejum. Na greve de fome de 36 dias que fiz, tomei só água até o 12º dia. Depois passei ao soro. Até o 5º dia, a greve de fome é suportável, pois o organismo tem reservas, que vão sendo queimadas. Garotinho tinha muitas porque era bem gordinho. A partir do sexto dia, começa a haver uma luta do organismo contra a mente. O organismo quer que você coma, se alimenta, numa luta pela sobrevivência da espécie. Aí você começa a pensar na morte e na luta pela vida. Tem gente que agüenta até quinze dias sem beber e sem comer nada, mas isso é muito raro. Sem comer e beber durante dez dias ninguém agüenta. Sem soro morre, a não ser que a pessoa tenha comido algo escondido nesse tempo todo. Depois do sexto dia dá uma vontade louca de comer escondido - diz Frei Betto.

Ele lembrou até o caso do padre polonês Maximiliano Kolbe, preso pelos nazistas no campo de concentração de Auschwitz e que morreu de fome em 1941.

- Padre Kolbe pediu para ser preso no lugar de um operário polonês e ficou quinze dias na solitária sem comer e sem beber. Como ele resistia, os nazistas lhe aplicaram uma injeção letal para matá-lo, mas esse foi um caso raríssímo na história recente da humanidade. Ele virou santo. Depois do 12º dia não se resiste mesmo sem comer ou tomar o soro. Com o soro, dá para sobreviver até 60 dias, mas a pessoa passa a ter problemas graves, nas articulações musculares - explicou Frei Betto.

O religioso diz que o problema maior depois de uma greve de fome prolongada é que o organismo começa a consumir os músculos.

- Começa a dar tonturas eum cansaço físico e mental enorme. Primeiro o organismo consome as gorduras. Depois, os músculos. Por isso, a pessoa que está em greve passa a ter uma elevação espiritual fantástica, esquecendo um pouco até do corpo - disse o religioso, lembrando que o Frei Luiz Flávio Cappio, bispo da Barra (BA) ficou onze dias em greve de fome porque tinha uma elevação espiritual muito grande.

Betto explicou ainda que o problema mais grave de uma greve de fome prolongada, é volta à vida normal.

- Se você voltar a comer depois de muitos dias em greve de fome, você morre. Tem que passar a uma dieta de pelo menos um mês só tomando suquinhos e caldinhos. E mesmo assim dá uma diarréia muito grande. Não se pode comer sólidos por um mês - garante Frei Betto.

Ele recorda-se do caso de dois guerrilheiros do IRA que lutavam no Reino Unido e que estavam numa greve de fome de 26 dias. Eles morreram quando passaram a comer no 27º. - Os chefes da prisão queriam matá-los e os obrigaram a comer. Por isso morreram - disse Frei Betto.


Germano Oliveira - O Globo 11/05/2006 - 17h02m

Escrito por Moura às 17:09
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Segunda-feira , 08 de Maio de 2006


A Mosca Azul

* Frei Betto


O poder intriga. Exerci-o poucas vezes: dirigente estudantil, chefe de reportagem… Mais recente, em 2003 e 2004, assessor especial do presidente da República, com direito a gabinete no Palácio do Planalto e uma infra nada desprezível: secretárias, celular, viagens aéreas, moradia, carro com motorista, tudo pago pelo contribuinte…

Muito aprendi. Algumas lições trago de berço. Meu avô e meu pai também serviram em palácios do governo.

A pessoa revestida de poder - qualquer um, de síndico ou gerente, policial ou político - deveria dar ouvidos ao que dela dizem seus subalternos. Vox populi… Mas não é o que acontece em geral. Prestamos mais atenção ao juízo dos pares e superiores, em busca de reconhecimento de quem tem poder de ampliar o nosso poder.

Assim, sobre os subalternos desaba aquele nosso outro lado perverso que tanto esmeramos em esconder aos olhos de nossos pares e superiores. Todavia, cavalo indomado, se não somos contidos pelas rédeas da boa educação, ai dos subalternos! Quem está por cima tem o poder de adverti-los, censurá-los, puni-los ou demiti-los. Como não nos ameaçam, deixamos extravasar o demônio que nos habita. Desarrazoados, elevamos a voz, humilhamos, xingamos, repreendemos, e por pouco não avançamos para cobrir a vítima de sopapos.

Dê à pessoa uma fatia de poder e saberá quem de fato ela é. O poder, ao contrário do que se diz, não muda as pessoas. Faz com que se revelem. É como o artista a quem faltavam pincel, tintas e tela, ou o assassino que, afinal, dispõe de arma. O poder sobe à cabeça quando já se encontrava destilado, em repouso, no coração. Como o álcool, embriaga e, por vezes, faz delirar, excita a agressividade, derruba escrúpulos. Uma vez investida da função ou cargo, título ou prebenda, a pessoa se crê superior e não admite que subalternos contrariem sua vontade, suas opiniões, suas idéias e seus caprichos.

Na falta de uma psicologia do poder mais sistemática, à qual não faltam as valiosas contribuições de Adler e Reich, recorro aos clássicos da literatura. Desde a Bíblia, destacando-se os livros do Pentateuco, às obras de Shakespeare, Kafka e o nosso Machado de Assis.

O dramaturgo inglês bem retrata as ambições e as intrigas do poder. O autor de A metamorfose revela a sua face opressiva, a arrogância, o modo como tende a anular a dignidade do cidadão comum. E Machado de Assis não faz por menos, embora com mais sutileza, porém incisivo.

Leia-se o conto O espelho. Ali, um tratado completo de patologia do poder. O jovem Jacobina, de origem pobre, é nomeado alferes. Descobre, pois, que cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora; outra que olha de fora para dentro…" (…) "Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor etc."

Recolhido à fazenda da tia, Jacobina se espanta por todos o tratarem de "senhor alferes" (o que me faz recordar que, no Planalto, todos são chamados de "doutor" ou "doutora", ainda que o funcionário nunca tenha pisado uma faculdade). Sua "alma exterior" anula a "interior". Jacobina só se dá conta da aberração quando se vê a sós na propriedade. Não é a solidão que o assusta. É a própria insignificância. Havia se acostumado a se olhar apenas de fora para dentro. Até que, uniformizado, contempla-se no espelho. Recupera então a auto-estima, o orgulho, a "alma exterior" que lhe despersonalizara, castrando-lhe a verdadeira identidade.

Nem todos que ocupam poder deixam que a "alma exterior" prevaleça sobre a "interior". Esses fazem do poder serviço e não temem o juízo de seus subalternos, nem mesmo críticas. Pois sabem que somos todos feitos de barro e sopro, e o que importa na vida é a bagagem subjetiva, não os adereços objetivos.

Sem o talento de Machado de Assis, porém, inspirado em seu poema A mosca azul, ousei levar ao papel minha reflexão sobre o poder. Resultou no livro A mosca azul", que a editora Rocco faz chegar este mês às livrarias. Meus dois anos no governo Lula me estimularam a partilhar com os leitores meu ponto de vista a partir de um ponto - o Palácio do Planalto, coração do poder.


* Frei dominicano. Escritor.


Adital (Agência de Informação Frei Tito para a América Latina) - www.adital.org.br - 14 mar. 2006

Escrito por Moura às 21:08
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