Leitor de blog costuma não gosta de textos extensos, mas publicarei na íntegra o artigo do Professor Pasquale de ontem. Inteligentíssimo! Dá sua aula de Português e, ao mesmo tempo, alfineta Lula no dia das eleições.
"Pseuda-inteligência"
A coisa está feia, caro leitor, feia, feia, feia. Parodiando o que diz aquela inteligente canção dos Titãs, a coisa está feia, muito feia demais. No começo da semana, o presidente da República atirou em seus amigos (ou ex-amigos, sabe-se lá). Usou palavras como "imbecilidade" e "barbárie" para se referir ao que fizeram os pais da genial idéia de vender ou rifar um certo dossiê contra... Você sabe do que se trata, não?
Pois bem. Na segunda-feira, em entrevista concedida a emissoras de rádio, Lula usou a expressão "pseuda-inteligência", que, na tela de algumas emissoras de televisão, virou "pseudo-inteligência". Logo em seguida, empregou esta construção: "Não é porque um bando de aloprados resolveram...". E na tela das TVs "resolveram" virou "resolveu" ("Não é porque um bando de aloprados resolveu..."). Por que as alterações na transcrição da fala de Lula, ou seja, por que as "correções"? Será que isso foi feito para que se evitasse um constrangedor "sic"? Aliás, o que será esse tal de "sic"? Trata-se de uma palavra latina, que significa "assim", "deste modo". Em geral, é empregada quando se quer deixar claro que o que se transcreve é fiel ao original, ainda que pareça estranho ou que seja errado.
Mas será que o presidente de fato escorregou nos dois casos? Em se tratando das variedades formais da língua, Lula tropeçou ao dizer "pseuda-inteligência", mas - é bom dizer - tropeçou como tropeçam e tropeçariam milhões de brasileiros, a começar pelos supostamente letrados. Que fez o presidente? Cheio de boas intenções, estabeleceu concordância entre "pseudo" e "inteligência", ou seja, usou "pseudo" como se fora adjetivo. Em linguagem formal, não é; é um elemento de composição, portanto invariável. É sempre antepositivo, ou seja, é sempre anteposto a outra palavra, para com ela formar uma outra, o que ocorre em "pseudocientista", "pseudociência" ou "pseudo-inocente", por exemplo. Proveniente do grego, esse elemento significa "mentiroso", "falso", "enganador". A pseudociência, portanto, não é ciência; é algo que se quer fazer passar por ciência, mas não é ciência. O pseudo-inocente não é inocente, mas... É melhor deixar isso pra lá.
Na linguagem informal, é cada vez mais comum o emprego de "pseudo" como adjetivo, o que já é citado pelo "Houaiss": "Modernamente, em linguagem informal, que não pertence ao dialeto culto, vem sendo empregado como adjetivo qualificativo". Em seguida, esse grande dicionário dá dois exemplos ("pseudos amigos" e "pseudas flores"). Ocorre que Lula falava a algumas emissoras de rádio, e não usava o tom de linguagem que se usa nas conversas de corredor. A expressão adequada à linguagem empregada seria "pseudo-inteligência".
Convém lembrar que esse elemento só é seguido de hífen quando se lhe agrega palavra iniciada por vogal, "h", "r" ou "s" (pseudo-inocente, pseudo-revolucionário, pseudo-humanista, pseudo-socialista etc.). Nos demais casos, nada de hífen (pseudopresidente, pseudotrabalhador etc.).
E a segunda expressão de Lula ("...um bando de aloprados resolveram")? Já tratei disso aqui, mais de uma vez. Quando o sujeito é formado por expressões como "um grupo de turistas", "a maioria dos jornalistas", "a maior parte dos escritores", "grande parte dos jogadores" etc., há duas possibilidades: a) empregar o verbo na terceira pessoa do singular ("A maioria dos alunos preferiu ficar", Um bando de aloprados resolveu"), caso em que se coloca em evidência o conjunto, o grupo, representado, no caso, pelas palavras "maioria" e "bando", respectivamente; b) empregar o verbo em concordância com o elemento formador do grupo, que, no caso de Lula, é "aloprados" ("...um bando de aloprados resolveram"), caso em que se colocam em evidência os formadores do conjunto ("aloprados"). Ao "corrigir" a fala de Lula, as emissoras de TV mais confundem do que esclarecem. Convém deixar claro que, com a forma escolhida, Lula enfatizou os formadores do grupo (os aloprados, de acordo com o presidente).
Pois é, caro leitor, cada um escolhe os assessores como bem entende, não é? Depois, dependendo do caso, explica os fatos também como bem entende, certo? Pelo jeito, não foi na concordância que o presidente errou; foi em outro território. E quem quiser que conte outra.
Até domingo. Um forte abraço.
Pasquale Cipro Neto. O POVO, Fortaleza, 01 de out. 2006, grifo nosso.